segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O REBELDE ALVES RIBEIRO

GILFRANCISCO: jornalista, professor da Faculdade São Luís de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com


José Alves Ribeiro nasceu em 11 de maio de 1909, na fazenda “Caldeirão Coberto”, município de Camisão, hoje Ipirá (onde nascera seu conterrâneo o ensaísta, tradutor e crítico literário, Eugênio Gomes, 1897-1972), situada na Mesorregião Centro-Norte Baiano, a mais de 100 km de Salvador, na qual seu pai era vaqueiro. Em 1912 seu pai foi despedido da fazenda, mas a essa época já havia adquirido um sitio nas matas do município vizinho, Baixa Grande, tendo deixado de trabalhar como empregado progrediu bastante, a ponto de ascender em poucos anos num modesto pecuarista.
O jovem Alves Ribeiro, filho de Laurindo Ribeiro e Maria Alves Ribeiro, na época o caçula da família, aprendera a ler sem freqüentar a escola. Além de ajudar os pais e os irmãos mais velhos nos trabalhos da lavoura, plantando e colhendo cereais, lia avidamente o que lhe chegava às mãos. À noite sob a luz de fifó (candeeiro), lia para os trabalhadores nas farinhadas: A história do Imperador Carlos Magno e Os Doze Pares de França, livro obrigatório nos serões da zona rural. Somente mais tarde, pode freqüentar a escola pública da sede do município.
Em dezembro de 1920 realizou sua primeira viagem à Salvador, juntamente com seus pais, e na capital baiana deixaram o caçula com seu padrinho, o coronel José Presídio Figueiredo, pai do jornalista Joel Presídio, onde concluiu no ano seguinte os estudos primários, no Colégio Pedro II. O curso ginasial foi iniciado no Carneiro Ribeiro (situado na ladeira da Soledade, próximo a Lapinha) e concluído no Ginásio São Salvador (situado na rua J.J. Seabra, Barroquinha).
Das doze disciplinas cursadas, exigidas na época ficou na dependência de suas: álgebra e geometria, por isso abandonou temporariamente os estudos, para reiniciá-los em 1930, quando foi beneficiado por um Decreto-Lei do governo da Revolução de Outubro, que considerou base de aprovação estudantil, sua freqüência, o que lhe possibilitava dispensa das referidas matérias, e assim poder fazer exames de admissão à Faculdade de Direito da Bahia, em principio de 1931.
Os longos anos em que passara em companhia do padrinho Presídio tiveram uma importância muito grande na formação de seu espírito, e certamente em sua orientação intelectual. Ali desenvolveria o interesse pelas leituras, o que acompanhou por toda a vida. Em sua nova residência encontrara muitos livros que os decoraria com avidez, onde iniciando sua atividade literária, com as primeiras colaborações na imprensa carioca na revista ilustrada, O Malho, que circulou a partir de setembro de 1902 a janeiro de 1954, e em Salvador na revista, A Luva (1925-1932), onde aparecem seus primeiros versos, muitos deles inéditos, constituídos nos moldes simbolistas, fariam parte dos volumes “Nirvana” e “Noivo da Morte”, cujos originais foram consumidos pelo DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda), órgão da Policia Política do Estado Novo, além do volume de ensaios “Tendência do Espírito Moderno” e seu arquivo particular dos trabalhos publicados (crônicas, poesias, criticas de livros, artigos literários e políticos) em jornais e revistas.


A década de 20, aliás, e uma boa parte da seguinte, foi para Alves Ribeiro ativa em sua vida intelectual. É de 1928 o lançamento da primeira revista modernista baiana, ligada aos Poetas da Baixinha, Samba – Mensário Moderno de Letras, Artes e Pensamento (nov. 1928), onde publica o manifesto “Samba”. É o ano da fundação com um grupo de outros jovens, da Academia dos Rebeldes (1928-1932), se fez presente no único número da revista modernista baiana “Meridiano” – Revista de Vanguarda (nº1, set. 1929), com três textos “A arte de desagradar” entrevistando Pinheiro Viegas e “Poema instantâneo”, ambos assinados, além do editorial manifesto da revista. Segundo depoimento de Jorge Amado, amigo e companheiro do poeta confirma sua autoria em artigo publicado no jornal A Tarde, edição de 29. jun. 1975: “Alves Ribeiro – o hoje ilustre juiz do Tribunal do Trabalho Doutor José Alves Ribeiro – no primeiro número da revista Meridiano, órgão dos Rebeldes, em editorial não assinado mas de sua exclusiva autoria, traçou os rumos de sua literatura de sentido universal porque plantada na realidade da vida brasileira, na tradição e no caráter original. Teorizando sobre criação literária no Brasil, o ensaísta adolescente opunha aos modismos europeus que dirigiam os movimentos ditos modernistas (em contraposição a elas, nós, os Rebeldes, nós afirmávamos modernos e não modernistas) uma literatura de problemas, temas, forma e seguimento brasileiro, resultando desse conteúdo nacional sua expressão universal”. Dissolvendo a Academia dos Rebeldes, cada um dos integrantes do grupo, tomou seu próprio rumo, e Alves Ribeiro afastou-se das letras. Durante algum tempo dedicou-se a advocacia, sendo nomeado a suplente do Conselho Penitenciário do Estado, em seguida contratado como professor de criminologia do curso de comunicação da Faculdade de Filosofia. Posteriormente por concurso ingressa na Justiça do trabalho, como Juiz da 5ª Região, sediada na Bahia de cuja Corte exerceu mais de uma vez a presidência.

Entre 1975/1976, conservando um das suas antigas características de rebelde, Alves Ribeiro publica por conta própria, para distribuir entre os amigos numa edição bastante simples (econômica), sem nenhuma referência sobre o autor, dois pequenos livros de poemas: “Sonetos de maldizer” (vinte poemas) e “Sonetos de bendizer” (dez poemas), pequena amostragem insuficiente para conhecer de sua obra poética. Apesar de escolher uma forma poética antiga, o soneto predominou no Classicismo e no Parnasianismo, foi cultivado por poetas de todas as épocas. Em geral, ele contém um tema tratado de maneira condensada, daí o efeito sobre o invulgar” leitor, Entretanto, esta escolha foi onde ele encontrou a forma mais exata para dimensionar seus sentimentos. Em ambos os livros, conseguem transmitir uma mensagem lírica em forma nova, onde a beleza é essencial. Sobre os livros comentar Jorge Amador na época da publicação: “são sonetos de amor da mais alta qualidade, de uma perfeição, de um oficio raros, cortados por um sopro lírico.
Poeta, cronista e ensaísta, Alves Ribeiro era o grande líder da Academia dos Rebeldes, aquele que soube realmente abrir novos caminhos para os companheiros. Colaborou em diversos periódicos: A Luva, Etc., Meridiano, O Momento, O Estado da Bahia, Diário da Bahia, Flama, A Noite, A Bahia, Diário da Tarde (Ilhéus) e em outros Estados. No Rio de Janeiro, colabora em vários periódicos: Dom Casmurro, Boletim de Ariel e O Malho. Faleceu em 27 de janeiro de 1978.


Livros Publicados:

Homenagem a Alves Ribeiro (João Cordeiro). Salvador, Edições da Academia dos Rebeldes, 1931.

Sonetos do Maldizer (20 Sonetos). Salvador, Gráfica da UFBA, 1975.

Sonetos do Bendizer (10 Sonetos). Salvador, Gráfica da UFBA, 1976.

A Cinza do Tédio (Inédito)

***

A Lição do Mar

Alves Ribeiro

Poeta, si queres aprender o sentido da vida,
aprende, primeiro, a interpretar a lição do mar.

Quando te sentires vencido pelo cansaço e pelo desânimo
para as grandes lutas do espírito,
e a terra te parecer inútil e pequenina para o teu sonho,
e os homens todos, uns vermes insignificantes,
- quando tiveres perdido, em suma, o gosto de viver, -
vai procurar o mar e mira-te em suas águas.
Ele é o símbolo do movimento, que não pára, da vida, que não pára.

Poeta, si queres ser grande e ser perfeito,
dá a teus versos o ritmo das ondas do mar.
Ele é a semente de toda criação,
é a própria fonte da vida,
porque toda vida vem do mar.

O mar é o grande mestre da vida:
a atração de suas moléculas
é o exemplo vivo da união e da força,
sem o que é impossível, na terra,
a conquista da felicidade entre todos os homens.

Por isso é que se compara a multidão ao mar.

Poeta, se queres aprender o sentido da liberdade,
aprende, primeiro, a interpretar a lição do mar
(e os poetas sempre foram os grande precursores da liberdade,
porque aprenderam a cantar inspirados na música do mar
que é a música da liberdade).

O mar é o princípio da libertação:
de sua contemplação é que nasceu o sonho dos primeiros navegantes e
[dos primeiros revoltados
em busca de novos mundos e de novas formas de vida,
em que os homens pudessem ser mais felizes sobre a terra.

Poeta, si queres aprender o sentido da vida e da liberdade,
aprende, primeiro, a interpretar a lição do mar.

Aracaju. Época, Ano I. nº 2, out/nov. 1948.

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