segunda-feira, 6 de julho de 2009


Ciganos, um milênio de história

GILFRANCISCO: jornalista, professor da Faculdade São Luis de França e membro do Inst. Histórico e Geográfico de Sergipe.
gilfrancisco.santos@gmail.com

O que levou a interessar-me pela cultura cigana foi o entusiasmo com que ouvia quando adolescente no final dos anos sessenta, juntamente com Mãe Toinha, em ondas curtas, através da Rádio Nacional (Rio), a novela radiofônica de Janete Clair (1925-1983) Aqueles Olhos Negros, romance entre os irmãos Vladimir (cigano) e Nadja aristocrata russa, que haviam sidos trocados por vingança quando nasceram. Em 1972 quando meus pais mudaram pela terceira vez para o município de Lauro de Freitas (grande Salvador), residia nas proximidades da cidade um bando de ciganos, seis ou sete famílias que habitam em casas. Cheguei a flertar uma linda ciganinha da comunidade local, mas os constantes olhares desaprovadores do pai me fizeram desistir da idéia. Ao lado de Celso Campinho e Timo Andrade estive em 1977 entre a equipe de produção do longa-metragem “Ciganos do Nordeste”, dirigido por Olney São Paulo, filmado na Bahia.
Em dezembro de 1985 conheci em Havana a numerosa família do cigano polaco Burtia Cuik, que se estabeleceu em Cuba em 1929 e falecera no ano de 1949. Casado com Terca (prima ucraniana) teve 19 filhos, todos nascidos sem exceção, em países diferentes. Levado pelas mãos do brasileiro Hélio Dutra (cidadão cubano), passamos boa parte da noite em companhia dos ciganos, conversando, ouvindo música e compartilhando da sua dança. Ao me despedir, oferecera-me um livreto sobre “a música e a dança cigana”. Na época Rogelio Sandin, descendente direto de Burtia estava preparando um livro sobre a saga de Burtia Cuik.
Anos mais tarde atendendo a solicitação do recente amigo, o maranhense Euclides Barbosa Moreira Neto, jornalista e cineasta, que conheci participando da XVI Jornada de Cinema da Bahia (1987), publiquei vários artigos entre setembro e dezembro do mesmo ano no jornal O Estado do Maranhão. Na época foi informado pela companheira Zoraide Vilas-Boas, jornalista da Rádio Educadora da Bahia – IRDEB, que se encontrava em São Luis participando do Festival de Cinema, organização por Euclides, que lera um longo artigo sobre os ciganos e sua cultura milenar. Da série dos artigos publicados no referido periódico, Euclides enviou: Zumbi, capitão dos Palmares e Fernando Pessoa. Outros textos foram publicados entre os quais aquele sobre os ciganos, que infelizmente fiquei sem cópia. Em 1996 já residindo em Aracaju, convidado por uma professora da UFS a participar de uma cerimônia nupcial cigana, que aconteceu no ajuntamento que ficava no bairro Rosa Else, retomei as leituras sobre os ciganos. Seja qual for o motivo o tema continua me fascinando.

Origem do Povo

A origem do cigano é desconhecida. Os estudiosos que procuram reconstituir a sua história afirmam que a sua primeira grande dispersão pelo mundo se deu a partir da Índia e que viveram por muito tempo no Egito antigo. Hoje eles podem ser encontrados em várias partes do mundo. Os próprios ciganos desconhecem a sua origem e a explicam por meio de mitos e lendas. Estas lendas se reportam às explicações cristãs de criação do mundo e destacam a sua origem pura, sem o pecado original, que contaminou os demais homens. Eles são os homens puros, em oposição aos não-ciganos. O seu nomadismo é explicado como predestinado por Deus, que não lhes deu uma terra, mas lhes concedeu o mundo todo para andarem livremente.
A história dos ciganos, assim como a conhecemos atualmente é breve: cerca de 1000 anos, e principia com seu aparecimento no Ocidente europeu. Pouco conhecido e pouco estudado no Brasil, os ciganos, entre nós, continuam cercados de “mistérios” decorrentes da incompreensão, do etnocentrismo e do preconceito. Quase nada sabemos dos acontecimentos anteriores à sua migração; nem mesmo se já eram nômades ou sedentários. A história do povo cigano é a história de um grupo que jamais fez guerras, nem aspirou ao poder, mas desde o início sofreu com a guerra de outros e foi muitas vezes perseguido.
Não há comprovação histórica de onde nasceram os ciganos. Alguns afirmam que a origem está na Turquia e de lá emigraram para o Egito. De acordo com o folclorista e estudioso Luis da Câmara Cascudo (1898-1986), saíram os ciganos da Índia, Sind e Pendjab, vagueando pelo Afeganistão, Pérsia, Armênia, Ásia Menor em fora, entretanto na Europa pela Grécia, derramando-se pela península Balcânica, vindo à Valáquia, Moldávia, Hungria, onde são notados em 1417. Surgem nas terras germânicas um ano depois e, em 1427, estão em Paris. Em 1447 chegam à Catalunha. Nesse mesmo século XV estão em Portugal. A sua popularidade levou o dramaturgo Gil Vicente (1465-1536) escrever o Auto das Ciganas (1521), onde os personagens Martina, Cassandra, Giralda e Lucrecia confabulam em mal castelhano, diante do Rei D. João III, no seu Paço de Évora, no ano de 1521.

Chegada ao Brasil

O mais antigo documento conhecido no Brasil, em que figura um cigano que aqui aportara com mulher e filhos é um alvará de D. Sebastião, de 1574, que troca a pena de galés de João de Torres por exílio. Acredita-se que os ciganos começaram a vir para o Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os primeiros eram degredados para a Bahia e Minas Gerais (Congonhas do Campo) foram os primeiros centros de concentração, ao tempo da colônia. Em 1718 chegam à Bahia as primeiras famílias ciganas. O Senado da Câmara deu-lhe para morada um trecho da Freguesia de Santa’Ana, perto da Palma, que passou a ser conhecido como Santo Antônio da Mouraria. Da antiga ocupação, não há atualmente nenhum vestígio, nem mesmo em outros pontos da cidade do Salvador.
Em 1710, os ciganos foram vitimas de violenta perseguição. As autoridades perceberam que os ciganos era um grupo homogêneo, unido, com uma só língua, com usos e costumes próprios, e por isso poderiam tornar-se uma força e um perigo. O decreto de 11 de abril de 1718 chamava à atenção das autoridades locais para o policiamento das atividades dos ciganos: “foram degredados os ciganos do reino para a Praça da Cidade da Bahia, ordenando-se ao governador que ponha cobro e cuidado na proibição do uso de sua língua e gíria, não permitindo que se ensine a seus filhos, a fim de obter-se a sua extinção”. Os povos ciganos que ainda resistem, procuram as estradas. Em 1726 e 1760 bandos de ciganos foram assassinados em São Paulo e, por decisão do Senado da Câmara, expulsos da cidade.
O Barão de Eschwege (1777-1855), militar, engenheiro e naturalista alemão, após ter trabalhado em mineralogia na Alemanha, passou a serviço de Portugal, vindo para o Brasil por ocasião da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, narra a participação entusiasta de um grupo cigano na comemoração pública quando do casamento da Princesa D. Maria Teresa, primogênita do Príncipe Regente, com seu primo, Infante de Espanha, D. Pedro Carlos, a 13 de maio de 1810. Eschwege informa: “Os ciganos foram convidados para as festas dadas na capital brasileira por ocasião do casamento da filha mais velha de D. João VI com o Infante espanhol. Os moços desta nação, trazendo à garupa suas noivas, entraram no circo montando belos cavalos ricamente ajaezados. Cada par pulou no chão, com incrível agilidade, e todos juntos, executaram os mais lindos bailados que eu jamais vira. Todos só tinham olhos para as jovens ciganas e os outros bailados que também executaram parecendo ter tido por único fim fazer sobressair os dos ciganos como os mais agradáveis”.
O historiador e médico baiano Mello Moraes Filho (1843-1919) que desenvolveu vários estudos etnográficos e folclóricos, em crônica “Um casamento de cigano em 1830” publicado em Festas e Tradições Populares do Brasil (1901) diz que: “Nessa época muitíssimos era os ciganos aqui residentes, entregando-se ao comércio de escravos e cavalos, empregados no foro e em vários misteres, todos porém constituídos em sociedade à parte, onde mantinham, sem a menor quebra de lealdade, as suas tradições e os seus preconceitos de raça”. O desenhista e pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), cuja obra é de grande valor para o estudo da história do Brasil no início do século XIX, integrou a missão artística francesa que veio ao Brasil em 1816, permanecendo por 15 anos, exercendo intensa atividade didática, escreveu e ilustrou “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” em três volumes (1834-1839) documentários sobre a natureza, o homem e a sociedade fluminense no princípio do século XIX.
Durante sua estada em nosso país (1816-1831), Debret retratou-os e sobre eles deu o seu depoimento, afirmando que caracterizavam “tanto pela capacidade como pela velhacaria que põem no seu comércio exclusivo de negros novos e de escravos civilizados”, informando que “os primeiros ciganos vindos de Portugal desembarcaram na Bahia, e se estabeleceram, pouco a poço, no Brasil, conservando nas suas viagens, as habilidades do povo nômade”. E contaminado, ele também, pelo preconceito, afirma: “Esta raça desprezada tem por hábito encorajar o roubo e praticá-lo; roubam sempre alguma coisa nas lojas onde fazem compra e, de volta para casa se felicitam mutuamente por sua habilidade repreensível”. No Rio de Janeiro eles se instalaram na Rua dos ciganos (atual Rua da Constituição) até 1808, quando procuraram outras localidades mais próximas das estradas do interior, levados pelo seu comércio de ouro e de cavalos.

Perseguições


Os ciganos sofreram, ao longo do tempo, muitas perseguições. No século XVI, na Inglaterra, eram de tal modo mal vistos que todos aqueles que com eles se relacionassem corriam o risco de ser condenados à morte e ter seus bens confiscados, sem direito a julgamento. Na Europa Central, nos séculos XVII e XVIII, foram também perseguidos, de modo implacável, em vários estados. Desde 1933, a imprensa nazista começou a acentuar que os ciganos e judeus eram raça estrangeira, inferior, e que teriam “contaminado” a Europa com o um corpo estranho.
As autoridades nazistas, com o apoio da generalizada antipatia contra os ciganos, puderam facilmente percorrer a via do extermínio desse povo. A 17 de outubro de 1939, quando Heydrich, a mando de Hitler, proibiu-os de abandonar seus acampamentos. Três dias depois, após recenseamento, foram transferidos para campos de concentração, esperando serem enviados à Polônia. A última e mais cruel perseguição por eles sofrida foi, contudo, a determinada pelo governo nazista da Alemanha, quando se calcula que, em conseqüência, 10 por cento da população cigana de todo o mundo foi exterminada nos campos de concentração, entre os fins da década dos 30 e os da II Grande Guerra. rancesa que veio ao Brasil em 1816, permanecendo por 15 anos, exercendo intensa atividade did

Cultura
Essencialmente nômade até hoje os ciganos vive pelo mundo, conseguindo sustentar-se basicamente do comércio. Devido à violência, as facilidades do mundo moderno, como as estradas asfaltadas e a necessidade de educar os filhos, tem tornado este povo sedentário, instalando-se com as famílias em cidades próximas as metrópoles. A tendência de todo cigano é fixar residência, não há mais lugar para o povo estar caminhando. Uma das justificativas para o sedentarismo é a perseguição social que o povo sofre, há quem ainda pense que todo cigano é ladrão ou gente que não presta.
Os ciganos têm um dialeto próprio denominado de shibi. Os grupos não têm certeza da origem da língua, entendida apenas por ciganos e ensinada pelos mais velhos aos mais novos que se interesse em aprendê-las. Acredita-se que a língua é de origem hebraica, com algumas variações incorporadas pelos próprios ciganos. Há indícios de cerca de 400 mil ciganos falam uma língua própria, o romani, e muitos outros falam dialetos dela, como o calo e o sinto. Esse povo alegre, que gosta de festas entre os grupos, falantes, gostam de gesticular muito, sem falar na hospitalidade, quando passam a conhecer o interlocutor, já que são extremamente desconfiados. Habilidosos, muitos homens usam a ourivesaria como meio de vida.
Qualquer cigano sabe cantar e tocar. Sua música não tem pressa de se exprimir, nem tampouco precisa dizer logo tudo e abruptamente. Os ciganos gozam universalmente de fama de músicos natos, e isto não se aplica apenas aos ciganos húngaros, mas também aos que vivem na Turquia e na Romênia. Os ciganos são logo reconhecidos pelas características próprias com que se apresentam (forma de vestir, de morar, o seu trabalho e a sua grande mobilidade). Eles têm os seus modos diferentes de vida, mas são pessoas iguais a qualquer outra, e precisa ser respeitadas também a individualidade do povo.
No Brasil, os ciganos são encontrados morando em casas, muitas delas luxuosas, ou em acampamentos de barracas. Alguns grupos se dedicam ao trabalho de fabricação, reparo e venda de utensílios de metal, enquanto outros se dedicam ao comércio e outras atividades correlatas. Alguns se apresentam muito ricos, fazendo uso de carros do último tipo, ostentando jóias de ouro, e outros são vistos como muito pobres, sujos, sem casas, adivinhos de sorte ou pedintes.




Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Belo Horizonte/São Paulo:Editora Itatiaia, Vol. I, 1984.
CHINA, José B d’Oliveira. Os Ciganos do Brasil, São Paulo: Imprensa Oficial, 1936.
_____. Os Ciganos no Brasil, São Paulo: Revista do Museu Paulista, XXI, 552. 1937.
_____. Elementos Ciganos na Gíria Brasileira. São Paulo: Revista do Arquivo Municipal, Volumes: II, III, IV, V, VII, IX, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII e XXX.
DORNAS FILHO, João. Os Ciganos em Minas Gerais. Belo Horizonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (Separata), Vol. III, 1948.
FONSECA, Isabel. Enterrem-me em pé (A longa viagem dos ciganos), São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
LELAND, Charles. Magia Cigana. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil (tradução Ana Zelma Campos), 1992.
MORAES FILHO, Mello. Os Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/São Paulo: Edusp (1ª ed. 1886), 1981.
____. Um casamento de cigano em 1830. In Festa e Tradições Populares do Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1979.
OLIVEIRA, Waldir Freitas. Ciganos: a arte de ver o outro lado das coisas. Salvador, A Tarde Cultural, 12. dez. 1992.
ROMERO, Silvio. Os ciganos: contribuição e etnografia por Mello Moraes Filho (posfácio). Os ciganos no Brasil e cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia/São Paulo: Editora Edusp (1ª ed. 1886), 1981.
ROSSO, Renato. Ciganos: uma cultura milenar. Petrópolis: Revista de Cultura Vozes, abr. ano 79, nº3, 1985.
SANT’ANA, Maria de Lourdes Bodini. Os Ciganos: Aspectos da Organização social de um grupo de ciganos em Campinas. São Paulo: Edusp, 1983.
_____.Nossos ciganos. São Paulo: Leitura, 9 (100) set, 1990.
Cachaça, mel dos brasileiros

Ao amigo Cleomar Brandi

GILFRANCISCO
Jornalista, pesquisador, professor da Faculdade São Luis de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com


Barata, popular e democrática a cachaça aliviou a dor nas senzalas, serviu a libação nos cultos religiosos, animou festas profanas. Durante anos foi perseguida e proibida. Tributada, contrabandeada, desfez preconceitos. Passou a ser apreciada, hoje, é produzida em todo o País.

*****

Segundo Luis da Câmara Cascudo o mais antigo registro do verbete “cachaça” que se conhece veio de Portugal onde era conhecida nas quintas fidalgas do Minho. O poeta Sá de Miranda (1481-1558) refere-se na sua carta a Antonio Pereira, senhor de Basto:

Ali não mordia a graça,
Eram iguais os juizes,
Não vinha nada da praça.
Ali, da vossa cachaça!
Ali, das vossas perdizes!

Já o professor Renato Mendonça (1912) em “A Influência Africana no Português do Brasil” (1933), livro clássico, obra a que se tem de recorrer necessariamente sempre que se aborde esse tema, afirma ser de origem africana. Registra ainda Cascudo que a denominação não se tornou comum em Portugal nem na Espanha, onde era feita das borras. Seria a primeira bebida destilada no Brasil do século XVI porque em 1610 o viajante francês Pyrard de Laval, na Bahia, informava: “Faz-se vinho com o suco da cana, que é barato, mas só para os escravos e filhos da terra”. Guilherme Piso e Jorge Maregrave, vivendo em Pernambuco (1638-1644), mencionam a cachaça como a espuma esfriada do caldo de cana, depois da primeira fervura na fabricação do açúcar. Era mais garapa e o teor alcoólico nenhum. O padre André João Antonil em seu livro “Cultura e Opulência do Brasil” (1711) escreve: “O caldo bota fora à primeira escuma, a que chamão cachaça”.

Origem – A indústria da cana-de-açúcar no Brasil, nos primeiros anos da colonização, tinha como objetivo a produção do açúcar, artigo muito procurado no mercado consumidor europeu. Por isso a cana-de-açúcar não é e nunca foi uma atividade exclusivamente agrícola, mas agroindustrial, uma vez que a cana tem de ser transformada em açúcar nos engenhos, também chamadas “fabricas de açúcar”.
Cachaça, cana, caminha, pinga, branquinha, parati, mata-bicho, engasga-gato, leite-de-onça, marvada, mé, limpa, fubuia... A aguardente de cana tem muitos nomes no Brasil. Se hoje a cachaça é muito popular, houve um tempo em que ela era praticamente desconhecida tanto dos portugueses quanto dos negros e dos indígenas. Sua descoberta se deve ao acaso. A bebida nasceu como subproduto dos engenhos, das impurezas retiradas durante o processo de fervura do caldo da cana, na produção do açúcar. Ao lado do tacho fervente havia outro de água fria, que servia para limpar os resíduos da escumadeira, uma espécie de colher.
Essa água com impurezas era chamada de cachaça, que, fermentada naturalmente, começou a ser consumida e apreciada pelos escravos. Só mais tarde a cachaça passou a ser destilada, recebendo então o nome de pinga, por que no processo de destilação o alambique fica pingando.
Antigamente, se usavam alambiques com destilações sucessivas, mas hoje se usam destiladores industriais que proporcionam a obtenção imediata da bebida. Do mesmo modo, antigamente, a cachaça era toda produzida em alambiques nos engenhos ou por pequenos plantadores como “subproduto” da plantação, praticando ainda a mistura de cachaças de diferentes origens. Tudo indica que já havia produção de cachaça no Brasil nos fins do século XVI, destinada aos escravos e às camadas mais pobre dos homens livres.
Até o fim do século XVIII, a Coroa portuguesa tentou, sem êxito, coibir a produção de cachaça no Brasil. Em principio, a cachaça, por ter inicialmente gosto muito alcoólico, só deveria ser comercializada após envelhecer pelo menos um ano em tonéis de madeira.

Brasil Nação – Desde sua descoberta, a cachaça ou pinga teve vida dupla: produzida no engenho, servia para o consumo dos escravos – como mata-bicho, desjejum, remédio ou estimulante – e também como moeda, junto com rolos de fumo, na comprar de escravos na África.
Apesar de sua importância comercial, recebia o mesmo tratamento dos filhos bastados nas casas-grandes: não freqüentava a mesa do senhor, que, por gosto ou hábito, preferia o vinho ou a bagaceira (aguardente feito a partir do bagaço da uva), bebidas típicas portuguesas.
À época do Brasil independente, após 1822, a cachaça passou a ser apreciada como bebida símbolo da nova nação. Hoje é largamente consumida, pura ou em batidas e licores. Pingado dos alambiques de engenhocas (pequenos engenhos) em todos os cantos do Brasil, a cachaça ganhou status de bebida nacional e hoje é industrializada, produzida por grandes empresas.

Pioneirismo – Outro grande estudioso, pioneiro sobre o assunto foi o sergipano José Calasan Brandão da Silva (1915-2001), autor do livro “Cachaça, Moça Branca” (1951) que publicou em 1943 no nº1 da Revista de Aracaju o artigo “Aspectos Folclórico da Cachaça”, onde procurou focalizar aspectos da cachaça na poesia popular de Sergipe, material coligido por ele. A cachaça tem exercido uma extraordinária influência no folclore brasileiro, mas ainda pouco estuda pelos folcloristas nacionais. Todos bebem. Ricos e pobre; brancos e negros, mas todos têm uma desculpa na ponta da língua para justificar uma bebedeira. Há quem diga que a branquinha serve para esfriar nos dias de calor, e para esquentar nos dias de frios; serve para inspirar os poetas, melhorar a voz dos cantadores:

Cachaça, fria da cana
Neta do canaviá
Quem bebe muita cachaça
Canta que nem sabiá.

***

Quando eu enjeitá cachaça
Macaco engeita banana
Vigaro perde a sumana.

Não tínhamos sobre o folclore da cachaça senão uns poucos artigos de jornais. O livro do professor Calasans preenche essa falta (há mais de cinqüenta anos), além de ser um estudo sobre a cachaça, contém algumas adivinhas, uma lista bastante longa de ditos e ditados da cachaça, por fim, um vocabulário extremamente rico.

Simpatias e Receitas – Para deixar de beber: Misture à cachaça raspa de unha da mão esquerda. A pessoa deve beber pela manhã, em jejum, mas nunca poderá saber.
Para curar embriaguez: Ponha o bicho-da-cana na água; despeje um poço no cálice de cachaça, sem a pessoa saber. Para ressaca: chá de boldo de quintal.

Cachaça:santo remédio

com laranja é diurético
com café corta gripe
com açúcar queimado, resfriado
com sal, excelente gargarejo para amigdalite
com pólvora, bom para dor de dente
com arruda, para o estômago
com chuchu, para reumatismo
com fumo, para bicho-de-pé
com teia de aranha, para ferida
com sassafrás, para dor de barriga
com ameixa, purgativo
com folhas de eucalipto, suador
com guiné, fecha o corpo
com catuaba, faz velho ficar moço a ponto de procurar mulher

Oração do Cachaceiro

Santa cana que está na roça,
aguardente sem mistura,
venha a nós o vosso líquido
para ser bebido à nossa
vontade, assim no boteco
ou em qualquer lugar.
O garrafão nosso de cada dia
nos daí hoje, perdoai as vezes
em que bebemos menos,
assim como perdoamos o
mal que ela nos faz, não nos
deixes cair atordoados,
livrai-nos da radiopatrulha,
amém.


A Cachaça na MPB

Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do rio Jordão.

***

Com a marvada pinga
É que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dou meo taio
Pego no copo e dali num saio
Ali mesmo eu bebo
Ali mesmo eu caio
Só pra carregar é que eu dô trabaio
Oi lá

(Ochelsis Laureano)

***
Eu bebo sim e vou vivendo
Tem gente que não bebe e tá morrendo
Eu bebo sim

***

O malandro
Na dureza
Senta à mesa
Do café
Bebe um gole
De cachaça
Acha graça
E dá no pé.

(Chico Buarque de Holanda)

Referências Bibliográficas


CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 5ª ed. 1984.

LIMA, Clóvis. O Alambique. Rio de Janeiro: José Olympio Editor, 1933.

MAIOR, Mário Souto. Dicionário Folclórico da Cachaça. Recife: Ed. Massangana, 2ª ed., 1980.

SILVA, José Calasans Brandão da. Cachaça, Moça Branca. Salvador, Museu da Bahia, nº13, 1951.
Antonio José da Silva, o dramaturgo Judeu

GILFRANCISCO
Jornalista, pesquisador, professor universitário e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com



Mártir da Inquisição, a história de Antonio José da Silva, “O Judeu” foi finalmente retratada no filme homônimo, dirigido por Jom Tob Azulay, produção luso/brasileira. As filmagens começaram em 1987, por falta de recursos foram suspensas e reativadas em 1994. O Judeu conta a saga do artista e sua família após seu julgamento pelo Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, para onde os infiéis eram então levados. Mostra ainda as atrocidades praticadas em Portugal em nome da religião, vítimas atingidas pela Inquisição são mostradas nas dolorosas e impressionantes cenas da película, revelando horrores da intolerância religiosa. Antonio José se destacaria com suas peças pelo humor popular, belas canções e uma aguda crítica social, colocando em questão os privilégios da nobreza e das instituições oficiais bem como os tortuosos caminhos da Justiça Portuguesa. No elenco atores portugueses e brasileiros: Felipe Pinheiro, Dina Sfat, José Lewgoy e Cristina Ache, todos já falecidos.

***

I. O barroco em Portugal desenvolveu-se durante um período bastante extenso: vigorou desde o fim do século XVI até o início do sé3culo XVIII. Nesse intervalo, o país alterou momentos de acentuada depressão com fases de incontida euforia. A onda pessimista foi desencadeada pela crise da política mercantilista e se acentuou com o delírio megalomaníaco do jovem rei D. Sebastião, em sua pretensão de anexar ao território português no norte da África, especialmente Marrocos.
Os intelectuais portugueses também conheceram os amargos reflexos da política de caça às bruxas: a repressão comandada pelo Santo Ofício no país deixou o saldo de 1800 pessoas queimadas na fogueira e mais de vinte nove mil (inclusive trezentos brasileiros) condenados a penas diversas. Outro dado importante para conhecer a psicologia do povo português durante a época barroca é o fenômeno do sebastianismo, mito fundado na esperança de que o jovem rei não desaparecera na batalha de Alcácer Quibir.
Antonio José da Silva, dramaturgo brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1705 e faleceu em Lisboa a 18 de outubro de 1739, conhecido pela alcunha de “Judeu”, porque descendia de uma família hebraica. Filho do advogado João Mendes da Silva e D. Lourença Coutinho, cristãos novos que suspeitos de praticar o judaísmo, foram presos em 1713 com os filhos e o tio Luís Mendes da Silva, pelos agentes do Santo Ofício e removidos para Lisboa. (1) Apenas a mãe do futuro dramaturgo fora indiciada e torturada nos cárceres da Inquisição, de que felizmente saiu livre neste mesmo ano.
Vivendo em Lisboa desde os oito anos, concluiu os estudos básicos, estudando as humanidades e bacharelendo-se em cânones pela Universidade de Coimbra. (2) Quando tudo parecia bem, voltara à desgraça familiar, pois o Tribunal da Inquisição era, contudo, cada vez mais impiedoso nas perseguições. Em 1726, Lourença Coutinho fora novamente presa e com ela Antonio José da silva, recém chegado de Coimbra em férias. A mãe é conservada em cárceres até 1728, enquanto o filho, acoimado de judaizante, graças a um auto-de-fé que mal pôde assinar, tais foram às torturas recebidas, foi posto em liberdade. Mas é declarado herege, apóstata, ficto, falso, simulado... Por isso excomungado e teve os bens confiscados. A tenacidade da infeliz família superava, no entanto as infâmias da inquisição.
Dois anos depois, já formado, estabeleceu-se em Lisboa como advogado juntamente com o pai e passa a dedicar-se ao teatro. Sua primeira peça encenada foi Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança (paródia da obra de Cervantes), em 1733. “Achamos nós uma fina sátira aos que querem passar por espadachins e valentões, nutrindo-se de bazófias e vestindo os andrajos da miséria. É magnificamente traçada a figura do protagonista, e não menos completa a do espirituoso Sancho Pança.. Vejamos como ele descreve à sua mulher e filha a muito célebre ilha cujo governo lhe prometera seu amo”: (3)

É a mais excelente do mundo; e mui grande, tem sete palmos de comprido e dois de largo; tem muitas árvores de espinhos, e o que me gabam mais é um passeio que tem d’ortigas, que dizem é uma maravilha: sobretudo tem o pé dos muros um canteiro de boninas, que cheiram, que tresandam; tem muito lega-cachorro, e é tão sadia que todos os anos tem um ramo de peste: quanto ao eu ir bem acomodado, nisso não se fala: Tomara-me eu já nestas limpezas, e então, se Deus quiser, casarei a minha Sanchica com um fidalgo.

Casado com uma prima judia, D. Leonor Maria de Carvalho, de quem teve uma filha de nome Lourença, passa a residir com a mãe, no Largo do Socorro, junto à igreja do mesmo nome. Em 1737, denunciado por uma escrava negra de Cabo Verde, que o poeta castigara, foi levado novamente às barras da Inquisição. Submeteu-se a julgamento, presidido por juízes cujo único intuito era incriminá-lo. E conseguiram-no, sem nenhuma dificuldade. A 5 de outubro do mesmo ano é recolhido aos calabouços do Rocio, com sua jovem esposa, velha mãe, e a negra denunciante, a qual, tomada de inexplicável terror, falecera dias depois.
Dois anos mais tarde, condenado como judaizante recidivo, garrotado, e seu corpo queimado em praça pública, Campo da Lã, em Lisboa, aos 34 anos. Nem a proteção do próprio rei D. João V, que por ele mostrou interessar-se, puderam salvá-lo das garras do Tribunal. De suas obras nada puderam extrair que pudesse comprometer a sua ortodoxia, recorreu-se à espionagem por meio de escutas, ou buracos feitos nos tetos e nas paredes dos cárceres. Nem o testemunho dos guardas, que asseguravam tê-los vistos várias vezes rezando e benzendo-se; nem mesmo o depoimento dos frades dominicanos que juraram em seu favor, afirmando a sua devoção e boa conduta.

II. Antonio José da Silva, que de maneira espontânea retoma ou aproveita como modelo o teatro vicentino, supera a influência do autor da trilogia das Barcas com invulgar talento cênico. (4) Suas peças tinham a designação de óperas, porque embora escritas em prosa, eram entremeadas de árias musicadas. (5) Refletiam o gosto amaneirado da época e ao mesmo tempo influências do burlesco italiano e francês.
Na tradição cômica de Gil Vicente, as criticavam os ridículos sociais, a vaidade dos fidalgos, a “candidez artificiosa das donzelas gráceis e corruptas, a vulgaridade plebéia dos costumes”. Uma nítida intuição do ridículo, cenas movimentadas e dinâmicas, diálogos circunstanciais e felizes, a sátira velada, mas perfeitamente identificável em situações e figuras da época, tudo isso se entrelaçando com o burlesco e apresentações equívocas, levando ao riso franco da platéia, eis o comediógrafo, o Judeu.
Outro não é o motivo porque Guerra do Alecrim e Manjerona, sátira de carnaval, é peça das mais representativas do teatro cômico em língua portuguesa de todos os tempos. Numa época em que renascia em Portugal o teatro, por influência francesa e italiana, Antonio José, levou às casas de espetáculos do Bairro Alto as melhores comédias de fantoches: comédia de costumes, ricas de situações, de tipos humanos e de bons achados expressivos. Este renome teria concorrido, talvez, para que mais tarde se encarniçasse contra ele o zelo do Santo Ofício e ao cabo de várias prisões e torturas a morte na fogueira da Inquisição; uma barbaridade, de que a história guardou a mais decidida execração. Vejamos um trecho de Guerra do Alecrim e Manjerona; em que procura fixar os costumes portugueses de sua época:

Dom Lancerote – Entrem, meus Senhores Doutores.
Dom Gilvaz (À parte) – Em boa me meteu Simicúpio! Eu não sei o que hei de dizer.
Simicúpio – Qual de vossas mercês é aqui o doente?
Dom Lancerote – É este, que aqui está de cama.
Simicúpio – Logo me pareceu pelos sintomas.
Dom Tibúrcio – Ai, minha barriga, que morro! Acuda-me, Senhor Doutor.
Simicúpio – agora vou a isso: ora diga-me, que lhe dói?
Dom Tibúrcio – Tenho na barriga umas dores mui finas.
Simicúpio – Logo as engrossaremos; e tem o ventre túmido, inchado, e pululante?
Dom Tibúrcio – Alguma coisa.
Simicúpio – vossa mercê é casada, ou solteira?
Dom Lancerote – Não, Senhor, que meu sobrinho é macho.
Simicúpio – Dianteiro, ou traseiro?
Dom Lanceroten – Ui, Senhor Doutor! Digo que meu sobrinho é varão.
Simicúpio – De aço, ou de ferro?
Dom Lancerote – É homem, não me entende?
Simicúpio – Ora acabe com isso: eis aqui como por falta de informação morrem os doentes; pois se eu não especulara isso com miudeza, entendendo que era macho, lhe aplicava uns cravos, e se fosse varão, umas limas; e como já sei, que é homem, logo veremos o que se lhe há de fazer.
Dom Lancerote – Eis aqui como gosto de ver os Médicos assim especulativos.
Simicúpio – Pois o mais é asneira: diga-me mais, ceou demasiadamente à noite passada?
Dom Tibúrcio – Tanto como a futura; porque desde que se me acabaram as chouriças, que me trouxe no alforje, me tem meu tio posto a pão e laranja.
Dom Lancerote – Aquilo são delírios, Senhor Doutor.
Simicúpio – Assim deve ser por força, ainda que não queira, pois conforme ao aforismo: Cum barriga dolet, caetera membra dolent.
Dom Tibúrcio – Não são delírios, Senhor Doutor, que eu estou em meu juízo perfeito.
Simicúpio – Por, pois quem diz que tem juízo, não o tem.
Dom Lancerote – Senhor Doutor, o homem está alucinado, depois que uma fantasma, que saiu de uma caixa, o desancou; e sobre isso a grande pena, que tem tomado de umas moças, que aqui introduziu em casa, enganando-as, de cuja insolência se me veio aqui a mãe queixar, que era mulher de bem, ao que parecia.
Simicúpio – Ela é muito criada de vossa mercê.
Dom Tibúrcio – Deixemos isso; o caso é, que a minha barriga não está boa.
Simicúpio – Cale-se, que ainda há de ter uma boa barrigada: deite a língua fora.
Dom Tibúrcio – Ei-la aqui.
Simicúpio – Deite mais, mais.
Dom Tibúrcio – Não há mais.
Simicúpio – Essa bastará – é um forte linguado! Tem mui boa ponta de língua! Vejam vossas mercês, Senhores Doutores.
Dom Gilvaz – A língua é de prata.
Dom Fuás – Úmida está bastantemente.
Simicúpio – Ora, senhores, capitulemos a queixa.
Este fidalgo (se é que o é, que isto não pertence à Medicina) teve uma cólica procedida de paixões internas; porque o espírito agitado da representação fantasmal, e da investida feminil, retraindo-se o sangue aos vasos linfáticos, deixando exauridas as matrizes sanguinárias, fez uma revolução no intestino reto; e como a matéria crassa, e viscosa, que havia nutrir o suco pancreático, pela sua turgência se achasse destinada do vigor, por falta do apetite famélico, degenerou em líquidos: estes pela sua virtude acre, e mordaz, vilicando, e pungindo as túnicas e membranas do ventrículo, exaltaram-se os sais fixos e voláteis por virtude do ácido alcalino...
Dom Lancerote – Eu não entendi palavra.
Dom Tibúrcio – Eu morro, sem saber de quê.
Simicúpio – Conhecida a queixa, votem o remédio, que eu, como mais antigo, votarei em último lugar.
Dom Gilvaz – Eu sou de parecer, que o sangrem.
Dom Fuás – Eu, que o purguem.
Simicúpio – Senhores meus, a grande queixa grande remédio; o mais eficaz é que tome umas bichas nas meninas dos olhos, para que o humor faça retrocesso de baixo para cima.
Dom Tibúrcio – Como é isso, de bichas nas meninas dos olhos?
Simicúpio – É um remédio tópico; não se assuste que não é nada.
Dom Tibúrcio – Vossa mercê me quer cegar?
Dom Lancerote – Calai-vos, sobrinho, que ele Médico é, e bem o entende.
Dom Tibúrcio – Por vida de D. Tibúrcio, que primeiro há de levar o diabo ao Médico, e à receita, que eu em tal consinta (Ergue-se).
Simicúpio – Deite-se, deite-se: o homem está maníaco, e furioso.

“Recomenda-se simplicidade da contextura a ópera denominada Esopaida, ou Vida de Esopo, onde se põe em relevo o espírito agudo e sagaz deste famoso filósofo grego. Inútil será dizer que Antonio José pôs a margem quase tudo o que nos transmitiu a história a respeito dele, servindo-se apenas das circunstâncias de ter sido escravo, corcunda e sumamente espirituoso”. (6)

Geringonça – Ora, Esopo, tu fazes zombaria de mim?
Esopo – Doutor de quando em quando.
Geringonça – Que ande eu morrendo d’amores por ti, e que tu tão seco, tão despegado, e desdenhoso me faças desprezos?
Esopo – Mulher, ou tição do inferno, não me deixará? Como queres que te queira bem se não acho por onde te pegue? Não vês que és uma cozinheira e que sou um doutor?
Geringonça – Tu és doutor?
Esopo – Quando nada; por quê? Não me vistes logo na cara o resplendor doutoral? Vê tu agora se está bem a um doutor casar com uma cozinheira? Já se tu foras doutora, tranca, porém uma criada chirle, fedendo a adubos, nom sufertur in rerum natura.
Geringonça – Ai! Tu sabes latim?
Esopo – In totum, ite, ite, ad temperandas panellas.


As produções literárias de Antonio José da Silva, o Judeu, foram escritas no período de 1727-1737, e obtiveram sucesso extraordinário em Lisboa, onde eram representadas por atores e por marionetes e muitas vezes se inspiravam em assuntos mitológicos, mas domina, de forma absoluta, o espírito tradicional lusitano. E como poucos, souberam criar situações que deliciaram por muitos anos a população lisboeta. As produções pertencem àquele teatro que rompera definitivamente com os modelos clássicos e acolhera o canto e a música como elemento do espetáculo dramático, bem representado à distância, na Inglaterra, por John Gay (1685-1732), o autor de The Beggar’s Opera, (1728).
O dramaturgo Antonio José da Silva, publicou: Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança (1733); Esopaida ou Vida de Esopo (1734); Encantos de Medeia (1735); Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1736); Labirinto de Creta (1736); Guerra do Alecrim e Manjerona (1737); As Variedades de Proteu (1737); Precipício de Faetonte , 1738. (7) O permanente sucesso popular das comédias é provado pelas reedições da primeira edição completa: Teatro Cômico Português, 2 volumes, Lisboa, 1744, reúne todas as peças de Antonio José. Uma edição moderna completa foi preparada por João Ribeiro em 4 volumes, Rio de Janeiro, Garnier (1910-1911) e finalmente Obras Completas de Antonio José, Lisboa, Sá da Costa (1958). Sua obra está a merecer uma edição crítica.
A ausência do nativismo brasileiro em suas peças deve-se exclusivamente dele ter passado quase toda a existência em Portugal. Apesar de suas peças despertarem o maior interesse na época, tem sido controvérsia a sua posição em relação à literatura brasileira. (8) “Por maior que tenha sido a importância do seu teatro, não revela nenhuma influência do nosso meio, não foi escrito para ele e não lhe pertence por qualquer título”. (9) O interesse pela biografia trágica do Judeu substituiu durante muito tempo o estudo sério das suas peças, que escritas por brasileiro, são as mais importantes peças dramáticas da literatura portuguesa do século VIIII. O estilo dramático das suas comédias, tipicamente rococó, lembra obras contemporâneas do espanhol Ramon de la Cruz (1731-1794) e do italiano Giambattista Lorenzi. João Ribeiro caracterizou-as como Vandevilles; também se pode lembrar a Zarzuel Madrilenha e o Thêatre de la Foire, de Paris, do século XVIII.




Notas

1. A primeira visitação do Santo Ofício, em terras brasileiras, data de 1591-1592, na Bahia, a segunda em 1618, no Rio de Janeiro. Vieram recolher as denunciam e os depoimentos dos acusados, e não as sentenças, que seriam dadas posteriormente pelo Tribunal, em Lisboa. Já por essa época, o Brasil era um refúgio de judeus, procedentes não só de Portugal como da Espanha, após a integração dos domínios portugueses no vasto império ultramarino da Coroa espanhola.

2. Também em Lisboa, fixou-se residência o poeta mulato carioca, Domingos Caldas Barbosa (1738-1800).

3. Curso de Literatura Nacional, Cônego Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livraria Editora Cátedra, INL/MEC, 3ª ed., p.410, 1978.

4. Trilogia das Barcas, de Gil Vicente: Auto da Barca do Inferno, 1517; Auto da Barca do Purgatório, 1518; Auto da Barca da Glória, 1519.

5. Fontes contemporâneas lisboetas chamam as peças de “óperas”, realmente, em certas cenas há indicações dos instrumentos que deveriam acompanhar a ação dramática, mas as respectivas musicais, de autoria desconhecida, desapareceram.

6. Curso de Literatura Nacional. Cônego Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livraria Editora Cátedra, INL/MEC. 3ª ed., p. 413, 1978.

7. Esta peça foi encenada em 28 de maio de 1818, em Diamantina-Minas Gerais, no teatro particular mandado construir pelo Desembargador, José Fernandes de Oliveira, para a sua amante, Xica da Silva.

8. No Teatro Guadalupe existente em Salvador, na Praça dos Veteranos em fins do século XVIII, ou início do século XIX, foram apresentados alguns textos teatrais aclamadas na época, tais como Labirinto de Creta, Guerra do Alecrim e da Manjerona, Encontros de Medeia, do celebrado teatrólogo, Antonio José da Silva, o Judeu. Os textos se importavam em grande parte; os melhores procediam da Itália (Maffei Goldoni) e da Espanha (Lope de Veiga, Calderón). Os piores de Lisboa, excetuados naturalmente os de Antonio José.

9. História da Literatura Brasileira, Nélson Werneck Sodré. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 4ª ed., p. 126, 1969.

Aparição do beato Antônio Conselheiro

GILFRANCISCO: Jornalista, professor da Faculdade São Luís de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com

O Diário Oficial do Estado, publica pela primeira vez em 12 de janeiro de 1896, notícia sobre o beato Antônio Conselheiro, texto transcrito de um jornal baiano. “Lê-se no Correio de Notícias da Bahia, de certa escrita por uma autoridade os seguintes tópicos, referentes ao célebre fanático e o seu séquito que dia a dia avoluma-se: Aqui estou em estado de sítio decretado pelo conselheiro e sua gente. Assisti no dia 4 a entrada triunfal deste monarca e de seu estado maior, composto de mais de 400 clavinoteiros e de um enorme séquito armado de cacetes e facas. Como tinha de vir até aqui não mudei de resolução. Aqui estando, o coronel F. Veio prevenir-me e o V. Escreveu ao ª para não ir a vila, pois a gente santa andava procurando-me. O conselheiro tem pregado contra as autoridades, os formados e o governo. Botaram os soldados para fora, arrombaram a cadeia e soltaram os presos. Por bem ou mal, com ameaças e armados, até na ruína obrigam o povo a dar-lhes dinheiro. É uma anarquia, um horror!
Eles pretendem aqui ficar por todo este mês.”

Outro artigo intitulado, Antônio Conselheiro, publicado no Diário Oficial de 26 de novembro de 1896, transcrito do Jornal de Notícias, da Bahia trás as últimas notícias vindas do interior baiano sobre o Conselheiro. Circulando no Juazeiro que aquela cidade se achava ameaçada de uma invasão por parte de Antônio Conselheiro e do seu numeroso séqüito, em sua maioria composto de bandidos e criminosos, dirigiu o juiz de direito da comarca ao sr. dr. Governador do estado um telegrama, ao qual respondeu prontamente a exa., nestes termos:

“Inconveniente governo mover força por menor boatos.
Mandai postar pessoas lugares convenientes para noticiarem a aproximação ou partida do grupo. Logo que tiverdes notícias avisai.
Irá imediatamente força em expresso. Tudo preparado: - Luiz Viana, governador.”

A propósito desse telegrama pondera a cidade de Juazeiro:
“Não se trata de meros boatos corporificados na leveza de espíritos doentios, inclinados à adulteração dos fatos, para transmitirem notícias alarmantes de prejudicial sensação.
Cavalheiro de reconhecida probidade e sensatez, digno da maior confiança, tendo testemunhado emissários de Antônio Conselheiro, destacados para vário pontos circunvizinhos de Canudos,reunindo seus adeptos para, armados, se incorporarem ao grosso esquadrão que tem de acompanhar o santo a esta cidade, em busca de uma taboado para igreja há meses arteiramente encomendado a distinto negociante de nossa praça, informou-se hábil minuciosa mente de todas os planos concebidos e incontinente despachou um positivo com carta dirigida a um seu amigo desta cidade, prevenindo-o do que ocorreria por aquelas regiões do fanatismo irmanado com o crime."

A figura controvertida de Antônio Conselheiro é vista como sendo alto, magro, idoso de cabelos e barbas respeitáveis,vestido num camisão azulado sob um corrião preto, alpercatas de alça, portando um cajado à mão e um surrão de couro às costas onde levava pena, tinta, papel e os livros inseparáveis para os sermões “Missão Abreviada” e “Horas Marianas”. Comia pouco, principalmente de carne e só dormia em esteira ou na falta o chão. O conselheiro acolhia as pobres vítimas da barbaridade policial, política e do fisco, e estas pessoas ele orienta e protege integrando ao grupo de fiéis. Durval de Aguiar, que esteve em Monte Santo no ano de 1882, quando fazia o Relatório das Províncias do Estado, (Descrições práticas da província da Bahia, 2a. ed. 1979) descreve o conselheiro como sendo um “sujeito baixo, moreno acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido de camisolão azul, morando sozinho em uma desmobilhada casa, onde se apinhavam as beatas e afluíam os presentes, com os quais se alimentava.”

Passando por Itabaiana em 1874, o conselheiro chega a Bahia pelo norte, e se hospeda por alguns dias nas proximidades de Monte Santo em 1875, na fazenda “Tanque da Nação”, propriedade do capitão José Higino, e de lá seguiu para Natuba e Mocambo, onde promete ao povo a construção de uma capela. Dando prosseguimento a missão chega a Vila Rica do Bom Jesus, arraial fundado por ele, prega novos sermões e pede autorização ao vigário para construir uma capela. Terminada a obra que se chamou Bom Jesus, uma "das melhores de suas obras e de grande beleza desde as partes laterais à nave, sobre um piso de muito bom gosto". As notícias em torno de suas obras se espalham pelos quatro cantos dos sertões, mesmo sabendo das dificuldades no transporte de pedras, madeiras, etc. quase sempre transportados nas mãos e dorso do povo da companhia, devido ao difícil acesso a animais de carga, não importava tais dificuldades, todos desejavam uma capela em seu povoado, e os convites chegavam aos montes para o conselheiro. Para a realização destas construções, a população local dava alimentação aos fiéis, fornecia ferramentas e coletava dinheiro para compra de materiais.

Quando se encontrava em 1876, numa localidade denominada de Missão da Saúde na Vila de Itapicuru de Cima, pregando seus sermões, Antônio Conselheiro é preso, sendo acusado de feroz criminoso por ter assassinado mãe e esposa. Seus companheiros ficaram irritados com tal acontecimento e tentaram defendê-lo, mas este os acalmou e prometeu voltar três meses depois, dizem até que ele voltou no mês dia e hora prometida. Remetido para à capital, passando por Alagoinhas percurso este feito à pé, sofreu agressões dos policiais e de pessoas dos lugares por onde passava.
Chegando em Salvador é recebido com desprezo, como um louco e se postava calma, sempre de cabeça baixa perante à multidão, quando este desfilou pelas ruas, a 5 de julho juntamente com seu seguidor o beato Paulo José da Rosa, José Manuel, vagabundo e ladrão e Estevam acusado de ser escravos fugitivo de uma fazenda do Estado de Sergipe, sendo que todos encontravam-se na cadeia desta vila.
Diante das autoridades, o conselheiro nega à autoria dos crimes, e por decisão do juiz, recambia o prisioneiro para o Ceará a fim de averiguações das acusações, encaminhando-o através de ofício do Chefe de Polícia, Delegado em exercício Francisco Pereira de Assunção:
"Faço apresentar a V. S. o indivíduo, que se diz chamar Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido por Antônio Conselheiro, que suspeito ser algum criminoso dessa província, que andam foragidos.
Esse indivíduo apareceu ultimamente no lugar denominado Missão da Saúde, em Itapicuru, e aí, entre gente ignorante, disse-se enviado de Cristo, e começou a pregar, levando a superstição de tal gente ao ponto de um fanatismo perigoso.

Em suas prédicas plantara o desrespeito ao vigário daquela freguesia e cercado de uma multidão de adeptos, começara a desassossegar a tranquilidade da população."

Corria o boato de como Antônio vicente Mendes Maciel havia executado os crimes: era conhecido de muitos do lugarejo que sua mãe não gostava da nora, por maldade e para provocar ciúmes disse ao filho que sua esposa tinha outro homem e induzira a fingir uma viagem e que retornasse à noite que o encontraria em sua casa. Maciel fez justamente como havia dito sua mãe, e ao ver um vulto se aproximou de sua janela e disparou o primeiro tiro, acertando o visitante, em seguida sua própria mulher. Voltando depois para ver a primeira vítima que deixara caída na janela, viu que era sua mãe vestida de homem.

Antônio Conselheiro chegou ao ceará num estado lastimoso, cabeçaraspada, maltrapilho e com um aspecto cadavérico. As acusações feitas não têm fundamentos, o fato é que sua mãe havia morrido quando este tinha quatro anos e sua mulher ainda vivia no Ceará, morrendo tempo depois abandonada esmolando pelas ruas de Sobral. a 15 de julho, o Chefe de Polícia do Ceará, comunica ao juiz de Direito de Quixeramobim, Alferes Alves Mateus, a ida de Antônio Maciel para esta localidade, por suspeita de crimes praticados nesta comarca. Após alguns dias detido, o juiz de Direito informou ao Chefe de Polícia do Estado sobre o acusado e este respondeu ao Chefe de Polícia da Bahia, dizendo "que não poderá conservar preso o Conselheiro, por não se achar este ali processado, nem ter cometido crime algum". Posto em liberdade a 1. de agosto, passa alguns dias no Boqueirão em casa de uma parente e retornou a Bahia onde era esperado pelos fiéis.

Nesta época Antônio Conselheiro já era bastante conhecido, sua humilde fama é registrada em 1877 na famosa "Folhinha Laemmert" da capital Imperial. "Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerce grande influência no espírito das classes populares..."
Durante o ano de 1880, o "povo da companhia" construíram várias obras: Arauá, Giró, Entre Rios, Itabaiana e Campos, mais tarde na Vila de Nossa Senhora dos Anjos construiu uma igreja, em Pedrão ergue uma capela na cidade de Alagoinhas, edificou mais uma igreja em Inhambupe, recuperou a matriz. Dizem que ele recebeu uma missão de construir um determinado número de templos, conseguiu mais de trinta entre Bahia e Sergipe, conforme prometera ao povo do sertão. Percorreu todo ele por 20 anos, não ficou cidade, vila ou lugarejo que não tenha passado, edificando templos a cristo e cemitérios aos mortos.

Inúmeras foram as calúnias atribuídas ao Conselheiro, tanto da parte de autoridades civis como religiosa. Após receber várias queixas da parte de alguns padres, o arcebispo Primaz da Bahia, D. Luiz Antônio dos Santos, expediu circular a 16 de fevereiro de 1882 ao clero brasileiro, a fim de não tolerar as prédicas do Conselheiro e que também evitasse sua ação entre o povo: "Chegando ao nosso conhecimento, que pelas freguesias do centro deste arcebispado, anda um indivíduo denominado Antônio Conselheiro, pregando ao povo, que se reúne para ouví-lo doutrinas supersticiosas e uma moral excessivamente rígida com que está perturbando as consciências e enfraquecendo, não pouco, a autoridade dos párocos destes lugares, ordenamos a V. Rvma., que não consinta em sua freguesia semelhante abuso, fazendo saber aos paroquianos que lhes proibimos absolutamente, de se reunirem para ouvir tal pregação, visto como, competindo na igreja católica, somente aos ministros da religião, a missão santa de doutrinar os povos, um secular, quem quer que ele seja, ainda quando muito instruído e virtuoso, não tem autoridade para exercê-lo."
No trajeto de sua viagem à Bahia, a pedido de coronéis, ele prometeu em alguns lugares voltar para construir igrejas e tais promessas foram cobradas durante mais de dez anos. Em 1884, parte de Natuba com a companhia destinando-se a Chorrochó, que chega no ano seguinte, passando por Tucano onde recupera a igreja local até chegar a Piquiriçá. Quando se encontrava em Natuba solicitou ele ao vigário local consentimento para pregar sermão na igreja, mas o padre negou-lhe. Ele insistiu na permissão em realizar a via Sacra, foi também negada. Neste mesmo lugarejo, na ausência do vigário Antônio Conselheiro iniciou a reconstrução da igreja local que se encontrava em péssimas condições. O padre ao tomar conhecimento ordenou a suspensão das obras, alegando desrespeito por não ter sido consultado. Não sendo possível a realização de mais uma obra, Antônio Conselheiro partiu. Anos depois este mesmo vigário mandou chamá-lo para que fosse continuada as obras, em virtude da igreja encontrar-se na mais completa ruína.

Chegando em Chorrochó, o Conselheiro era espera. Descansaram da longa caminhada e no dia seguinte iniciaram os trabalhos de construção da igreja, que seria em louvor a São João,padroeiro da cidade. A obra levou mais de dois anos, o agradecimento e à acolhida do povo foi tão grande que quando ele partiu muito choraram. As perseguições ao Conselheiro continuam, não pára e a 10 de novembro de 1886, o delegado de polícia de Itapicuru Luiz Gonzaga de Macedo, remete um longo ofício ao chefe de Polícia Domingos Rodrigues Guimarães, pedindo-lhe ao governo do Estado que desce imediatamente a providência cabível sobre o Conselheiro, já que a intervenção da igreja foi inútil.

Atemorizando as autoridades superiores da capital, ele diz: " ILMO. SR. - É de meu dever levar ao conhecimento de V.S. que, no arraial do Bom Jesus, existe uma sucia de fanáticos e malvados que põem em perigo a tranqüilidade pública. Há 12 anos, pouco mais ou menos com pequenas interrupções, fez sua residência neste termo Antônio Vicente Mendes Maciel, vulgo Antônio Conselheiro, que, por suas prédicas, tem abusado da credulidade dos ignorantes, arrastando-os, ao fanatismo". Quando este ofício foi remetido, Antônio Conselheiro encontrava-se construindo uma capela na Vila. Reconhecia o delegado a importância da mesma para a localidade, mas temia haver desavença entre o povo da companhia e o vigário de Inhambupe, e assassinato deste último, dizendo atemorizado: "Faz medo aos transeuntes passarem por ali, vendo aqueles malvados munidos de cacetes, facas, facões, clavinotes, e ai daquele que for suspeito de ser infenso a Antônio Conselheiro!"

Para desapontamento do delegado, não foi enviada nenhuma força especial de Salvador, como também não houve qualquer prática de violência por parte do povo da companhia de Jesus. Em meados do ano seguinte, a 11 de junho de 1887, mais uma vez o arcebispo da Bahia pede ao governador João Capistrano Bandeira de Melo, solicitando intervenção contra o "indivíduo Antônio Vicente Mendes Maciel que pregando doutrinas subversivas, fazia um grande mal à religião e ao estado, distraindo o povo de suas obrigações e arrastando-o após si, procurando convencer de que era Espírito-Santo,...". Sem provas a atos criminosos, o governador informa ao ministro do Império Barão de Mamoré o fato, e solicita sua intervenção no hospital de alienados do Rio de Janeiro, mas este também não encontrou fatos concretos para à perseguição, e respondeu-lhe apenas dizendo que não havia vagas.

Deixando Chorrochó o povo da companhia, segue seu líder com destino a Bom Conselho mas passam em Feira de Pau e erguem a capela de São José, onde trabalharam seis meses, seguindo depois para Buracos, permanecendo por alguns dias na espera da autorização do padre de Bom Conselho, conseguida depois de muitos pedidos do povo. O início da construção de mais um templo foi em 1893, no mesmo ano em que o governo publica os editais dos impostos, autorizando aos municípios a cobrança de impostos, que eram afixadas em locais públicos e nas portas da municipalidade para conhecimento de todos. Nesta cidade ocorreu o primeiro protesto público dos "conselheiristas" contra a República, em pleno dia de feira onde se encontrava além da população local, as da redondezas.
O Conselheiro que já havia partido para Natuba com grande número de fiéis, ainda permaneceu boa parte na cidade que arrumavam as bagagens para partirem, quando souberam dos editais. Em protesto arrancaram as tabuletas, queimando-as em seguida. Este incidente fez com que o Conselheiro ganhasse simpatia dos pequenos proprietários e também novas investidas do governo. O fato ocorreu por dois motivos: 1. A República impôs aos sertanejos encargos fiscais mais elevados que no tempo do Império, e tais impostos eram originários dela (República) e não de Deus. 2. Durante o Império não havia impostos e sim dízima, ou seja obrigações para com Deus. Apesar de não impedir o surgimento de novos impostos, o Conselheiro foi um fervoroso combatente, segundo o Chefe de Polícia do Estado na época, Aristides Milton, diz que ele impedia a mão armada a cobrança de impostos.
Após deixarem a cidade, é reunido um destacamento da Polícia Militar constando de aproximadamente 40 homens, comandado pelo tenente Virgílio de Almeida, formado por vários destacamentos, que partiram à noite do mesmo dia em perseguição ao Conselheiro. Exausto após três dias de viagem, Antônio Conselheiro resolve passar à noite numa fazenda no lugar denominado Masseté, próximo a Tucano, quando são surpreendidos pelos policiais que abrem fogo contra a multidão indefesa, deixando vários feridos e sete mortos, debandando em seguida. Indignado, o Conselheiro manda que saíssem a procura dos assassinos que são alcançados em Coité, foram mortos mais da metade, a foice, facão e pau. Este é o primeiro atentado armado contra o Conselheiro e sua gente. Após o combate com os policiais, apossaram-se das armas, mas eram poucas, e prevendo novos atentados o Conselheiro procurou se fortificar, reuniu o pessoal e rumaram ao Cumbre e de lá para Canudos. Sem perda de tempo, o governador da Capital José Gonçalves da Cunha e Silva, envia para a captura do "Fanático" oitenta praças chefiado pelo coronel José Leitão, mas estes não passaram de Serrinha de onde recuaram temerosos à enfrentar o desconhecido sertão.





A arte poética de Augusto dos Anjos


A arte poética de Augusto dos Anjos


GILFRANCISCO: Jornalista, professor da Faculdade São Luis de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe – IHGS. gilfrancisco.santos@gmail.com

Augusto dos Anjos, autor de um único livro, Eu, publicado em 1912, obteve e vem obtendo a consagração popular através de sucessivas reedições. É uma das raríssimas exceções nas letras brasileiras, jamais ressuscitou: simplesmente porque nunca morreu. Augusto dos Anjos é o inventor dos contrastes, com suas permanentes paisagens, fortes e coloridas a dominar toda sua poesia; a fluir dos símbolos naturalistas e darwinianos.
Seus versos trazem mensagens de: humanismo sensibilidade, verdadeiros retrato da criatura humana asfixiada pela desgraça, inconformismo e desespero. Augusto viveu seus últimos anos num período de crises, às vésperas da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Modernista Brasileira, influenciada pelas vanguardas culturais européia. Seu poder de transfiguração, influenciado pelas correntes do começo do século, transfundiu sua sensibilidade por meio de intrigantes vocabulários, com uma cosmovisão de um mundo dentro duma atmosfera sinistra, extravagantes e perturbadora. Este poeta completa 95 anos de falecido, após ser acometido de forte gripe que se alongou por doze dias.
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, filho do advogado Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos, a Sinhá-Mocinha, os quais tiveram vários outros filhos, nasceu na Paraíba à margem do Rio Uma, no Engenho Pau-D’Arco, próximo a Vila do Espírito Santo, a 20 de abril de 1884, numa época onde o ambiente socioeconômico e político se transformava no país e morre de pneumonia em Leopoldina, no Estado de Minas Gerais, às 4 horas da manhã de 12 de novembro de 1914.
Inicia os estudos de humanidades em 1900 no Liceu Paraibano, onde incerta seu convívio com o amigo Órris Soares. Neste mesmo ano publica o poema Saudade, escrito em 1899 num almanaque do Estado da Paraíba, o qual marcaria sua estréia no cenário literário paraibano, e aparecem suas primeiras composições poéticas no jornal conservador O Comércio, da cidade da Paraíba (futura João Pessoa), onde publicou inúmeros poemas. E três anos depois ingressa na Faculdade de Direito de Recife, bacharelando-se em 1907, tendo como colega o escritor Gilberto Amado.
Fase – Em julho de 1910. Casa-se com D. Ester Fialho com quem teve dois filhos, é o ano em que se conflita com o Governador do estado, João Machado, causando-lhe o afastamento do Liceu Paraibano, coincidindo com sua transferência de residência para o Rio de Janeiro, onde vive como professor do Ginásio Nacional e da Escola Normal.
Em sua fase inicial, o poeta do Engenho Pau D’Arco, sofre influência marcante do simbolismo, cujas figuras principais eram Cruz e Souza e Alphonsus de Guimarães, que tinham colaborações na imprensa paraibana, tanto em O Comércio como na União, jornal também dedicado à divulgação de obras poéticas.
Descoberta – O simbolismo veio trazer descobertas verdadeiramente revolucionárias ao processo cultural da poesia, através de exploração do inconsciente e do subconsciente, e teve seu momento mais expressivo da poesia de vanguarda, iniciada na França em 1886 por Jean Moréas, Verlaine, Mallarmé e Rimbaud, que se tornou público no Brasil em 1893 com os livros Broquéis e Missais de Cruz e Souza, poeta maior do simbolismo brasileiro.
Augusto se apaixona e aproxima-se dos simbolistas, podemos perfeitamente identificá-lo, podemos ainda encontrar em seus versos, os vermes do poeta maldito Baudelaire, de terminologia ousada, os tremores alucinóides os quais se aproximam dos ritmos macabros de Augusto.
Emoções – Os simbolistas procuraram exprimir todas as emoções de forma mais despojada de toda eloqüência e se aproximam de maneira impressionante da música, pela musicalidade de sua forma. Através da Folha Popular, publicado no Rio de Janeiro em 1891, um pequeno grupo formado por Bernardino Lopes, Oscar Rosa, Cruz e Souza e Emiliano Perneta, este assinara um artigo manifesto inaugurando o primeiro e principal grupo simbolista brasileiro. O simbolismo é uma arte requintada, preciosa e delicada que se dirige a uma pequena elite, e neste dilatado período, talvez Augusto dos Anjos tenha fundido suas cucas e seja inclassificável.
O Panorama ideológico define o simbolismo como um movimento de transição. Sua poesia é científica de linguagem especializada, específica e perfeita pela clareza das idéias. Eu, passou despercebido apesar de reeditado; sua classificação diante dos movimentos estabelecidos é controvertida, sendo classificado como simbolista devido à época em que ele viveu e a voga do simbolismo, mas aproxima-se do realismo-naturalista, de uma riqueza vocabular nunca vista entre nossos maiores poetas. Sua poesia esotérica de erudição mística carregada de imagens fantásticas, que por sua vez não há nele o caráter existencial, ou a exigência de essencialidade que existe em Rimbaud, Verlaine ou Mallarmé.
Fama – A publicação do Eu, edição particular, contendo 56 poemas, custeada pelo poeta e seu irmão Odilon, constando de mil exemplares e péssima distribuição, escandalizou-os poucos leitores e aos críticos como A Tribuna, O País, Gazeta de Notícias, registro Literário, Jornal do Comércio e tantos outros. A partir da publicação de Eu, Augusto começa a adquirir fama, saindo das sessões literárias para os comentários policiais, apesar do livro continuar encalhado nas livrarias e inicia a escrever novos poemas para um novo livro.
Depois de sua morte, se estendeu sobre seu nome e sua obra um silêncio profundo, apesar de ser incluído na antologia dos Sonetos Brasileiros, em 2ª edição com o poema O Morcego, organizada pelo sergipano Laudelino Freire, publicada na França em 1916, o qual recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letra em 1919, além da reedição do Eu (Eu e Outras Poesias); coligida por seu amigo Órris Soares que preparou e prefaciou a edição acrescendo mais 48 poemas, publicado na Paraíba em 1920, é que o poeta passa a ser considerado pela crítica. Mas, a consagração póstuma de Augusto dos Anjos só ocorreu em 1928, a partir da terceira edição, que ele começa a ser realmente vista pelo leitor comum. Daí em diante o Eu, passou a despertar tanto a crítica como os leitores e inúmeras edições foram publicadas em memória deste grande e importante poeta brasileiro.
Observação – Antonio Houaiss, num dos melhores trabalhos já publicados sobre o poeta nos fez uma observação quando se fala em edição: na realidade deveria se disser reimpressão ou nova tiragem. Zenin Campos afirma que na 14ª edição de 1946, o livro alcança quase a casa dos trinta mil exemplares vendidos. Hoje se encontra com mais de 40 edições.
A revisão da descoberta da arte poética de Augusto dos Anjos, recentemente pela crítica por quatro trabalhos da maior importância que enfoca vida e obra: o primeiro, um estudo minucioso do biógrafo já falecido Raimundo Magalhães Júnior, o segundo um estudo crítico do poeta maranhense Ferreira Gullar, o terceiro outro ensaio de Antonio Houaiss, já em 3ª edição e finalmente Augusto dos Anjos: Poesia e Prosa, de Zenin Campos Reis.
Amargura – Esta figura controvertida e mística, solitária e amarga, vivia de lecionar literatura, primeiro na Paraíba, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que tanto tem desafiado o tempo e os críticos, teria ele sido influenciado pelo materialismo dos filósofos Hegel e Spencer, gerado por um trauma emotivo passional, que seria o motivo da grande carga de amargura contida em seus versos.
O laboratório poético de Augusto dos Anjos desdobra-se na gravidade de sua linguagem, um idealista científico, um mistério cósmico. O Eu, segundo Órris é um livro de sofrimento, de verdade e de protesto. Pode-se afirmar sem nenhum receio que Augusto dos Anjos dispensa maiores comentários.

Dois Sonetos de Augusto dos Anjos


Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

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Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga
Escarra nessa boca que te beija!